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Aquecimento global acelera contaminação dos oceanos por mercúrio

Especialistas apontam aumento na formação de metilmercúrio e riscos ao consumir peixes contaminados

06/05/2026 às 11:48
Por: Redação

Pesquisadores discutiram em evento no Rio de Janeiro o aumento da poluição dos oceanos por mercúrio, destacando que as mudanças climáticas estão intensificando a conversão desse metal em metilmercúrio, substância muito mais tóxica capaz de se acumular na cadeia alimentar e, posteriormente, chegar ao ser humano por meio do consumo de peixes.

 

Estima-se atualmente que aproximadamente 230 mil toneladas de mercúrio estejam presentes nos oceanos do planeta, onde podem permanecer por até 300 anos. De acordo com informações apresentadas pelo químico Lars-Eric Heimbürger-Boavida, vinculado ao Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), da França, esses dados revisados indicam números menores do que se supunha anteriormente, quando as estimativas chegavam a 100 milhões de toneladas e a permanência do metal poderia ultrapassar 100 mil anos.

 

O cientista participou do primeiro dia da Reunião Magna 2026 da Academia Brasileira de Ciências (ABC), ocorrida no Museu do Amanhã, na capital fluminense, que teve em sua pauta a poluição marinha.

 

Entre as diversas formas de entrada do mercúrio nos mares, estão as fontes naturais, como atividade vulcânica e erosão de rochas que tenham o elemento em sua composição. Contudo, segundo o pesquisador, a principal causa é a intervenção humana, realizada por meio de atividades como a queima de combustíveis fósseis, mineração, produção em escala industrial e processos de desmatamento.

 

“Temos bastante embasamento científico e influência suficiente para tomar uma decisão política sobre este quadro. Temos em vigor a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, cujo objetivo é reduzir nossa exposição ao mercúrio”, diz Lars-Eric.


 

Segundo o pesquisador, a atuação das bactérias na produção de metilmercúrio não pode ser contida pelo ser humano. Ele explica que a única alternativa é reduzir ao máximo as emissões de mercúrio ao ambiente, esperando que, futuramente, a presença do metal diminua. O aumento das temperaturas, ressaltou, favorece a ação bacteriana. No Ártico, por exemplo, o aquecimento global libera mercúrio presente em geleiras, elevando a atividade bacteriana responsável pela formação de metilmercúrio.

 

Circulação global e impactos ambientais

 

Na mesma conferência, o papel do mercúrio como poluente global foi abordado pelo biólogo Carlos Eduardo de Rezende, docente da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Em sua apresentação, Rezende tratou especialmente da relação do metal com a matéria orgânica em ecossistemas terrestres e costeiros.

 

O biólogo detalhou que o mercúrio pode circular na atmosfera e se redistribuir globalmente, sem depender do local de origem das emissões. Destacou ainda a função geoquímica da matéria orgânica, que atua como suporte, retendo o mercúrio e afetando sua movimentação no ambiente.

 

Segundo ele, mudanças no uso do solo em regiões como a bacia do Rio Paraíba do Sul — que envolve os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — alteram a dinâmica do mercúrio nas águas. Ainda há registro de mineração ilegal na região, mesmo após a instituição da Convenção de Minamata.

 

“Ainda temos muito o que estudar sobre o ciclo global do mercúrio e os fatores relacionados a ele. Principalmente, quando pensamos no Antropoceno, nos impactos dos seres humanos sobre a Terra. Nesse ambiente de transição energética e de mudanças climáticas, é importante que os governos estejam envolvidos na questão também”, analisa o pesquisador.


 

A edição deste ano da Reunião Magna da ABC mantém como tema central a ciência oceânica e prossegue até 7 de maio, reunindo pesquisadores brasileiros e estrangeiros. A coordenação do encontro é do acadêmico Luiz Drude de Lacerda, doutor em biologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor titular no Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará (Labomar-UFC).

 

Para Luiz Drude de Lacerda, os oceanos desempenham papel essencial para a estabilidade do planeta, não apenas do ponto de vista ambiental, mas também em relação ao sustento e ao bem-estar de milhões de pessoas. Ele avalia que o sistema marinho está sob crescente pressão devido à poluição, exploração intensiva de recursos naturais e impactos associados às mudanças climáticas, ameaçando suas características naturais.

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