LogoFortaleza Notícias

Crise no BRB afeta funcionários e ameaça confiança após operação policial

Funcionários relatam tensão, sindicatos apontam prejuízos e governo promete solução rápida para crise no banco público do DF

16/04/2026 às 20:45
Por: Redação

A deflagração da Operação Compliance Zero pela Polícia Federal em novembro de 2025, ao revelar fraudes financeiras envolvendo o Banco de Brasília (BRB) e o Banco Master, provocou danos significativos à confiança depositada na instituição pública do Distrito Federal, abalando diretamente o cotidiano dos quase cinco mil funcionários do banco.

 

Daniel Oliveira, diretor do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal e concursado do BRB desde 2008, declarou que tanto a sociedade quanto os trabalhadores estão arcando com as consequências de uma decisão política voltada para o resgate do Banco Master.

 

Segundo Oliveira, o ambiente interno do BRB tornou-se consideravelmente mais tenso. Funcionários que participaram de negociações ou tiveram acesso a discussões com o Banco Master vêm sendo chamados a prestar esclarecimentos à Polícia Federal e a auditores, especialmente aqueles das áreas ligadas diretamente ao caso. Estes profissionais, de acordo com o sindicalista, possuem informações consideradas relevantes para o andamento das investigações.

 

As negociações citadas envolveram a aquisição de bilhões de reais em créditos do banco controlado por Daniel Vorcaro, preso desde o início de março. O processo culminou com o anúncio da intenção do BRB de comprar parte do Banco Master por dois bilhões de reais. No entanto, o Banco Central rejeitou a compra, determinando, posteriormente, a liquidação extrajudicial do Master e desencadeando a Operação Compliance Zero.

 

Após a operação, a tensão também aumentou entre os clientes, que passaram a buscar informações nas agências a respeito da segurança de seus investimentos e da estabilidade financeira do BRB. Funcionários relatam que têm sido responsáveis por tranquilizar esses clientes e convencê-los a não movimentar seus recursos, mesmo sem dispor de todas as respostas para as dúvidas apresentadas.

 

“Nossos empregos também estão em jogo. Somos cobrados a dar satisfações sobre fatos que escapam da nossa alçada. Quem atende ao público tem que estar o tempo todo atento ao noticiário para poder transmitir informações que, a nosso ver, são de responsabilidade do banco e do GDF”, ponderou Oliveira.


 

Oliveira ainda relatou que o sentimento entre os trabalhadores flutua entre indignação e apatia, pois alguns já haviam advertido sobre possíveis irregularidades nas transações com o Master antes que as denúncias se tornassem públicas. Ele afirmou que o sindicato denunciou a primeira compra e venda de carteira de créditos do Master ao Banco Central e à Comissão de Valores Mobiliários em novembro de 2024, devido ao entendimento de prejuízos ao BRB.

 

Preocupações entre aposentados e clientes

A crise também gerou apreensão em aproximadamente três mil aposentados do BRB, visto que seus planos de saúde e de previdência complementar dependem diretamente da saúde financeira do banco. A Previdência BRB manifestou-se para acalmar esses participantes e os demais clientes, informando possuir um patrimônio superior a quatro bilhões e trezentos e noventa milhões de reais, segregado do patrimônio dos patrocinadores, incluindo empresas do conglomerado BRB, e gestão autônoma e independente.

 

Com mais de sessenta anos de trajetória, o BRB administra atualmente mais de oitenta bilhões de reais em ativos e tem uma base de mais de dez milhões de clientes, sustentando-se que possui capacidade de absorver eventuais prejuízos com recursos de curto prazo.

 

Oliveira alertou que a falta de solução e a demora em esclarecer os desdobramentos do caso podem impactar mais o mercado e os investidores do que os prejuízos financeiros em si, ameaçando o patrimônio do BRB. De acordo com ele, a escassez de informações motivou a agência Moody’s a rebaixar a nota do banco, atribuindo esse rebaixamento à falta de transparência sobre o real impacto da compra de ativos do Master e à inexistência de um plano de recuperação claro. Para a Moody’s, o BRB necessitará de uma “injeção relevante de capital” para garantir o cumprimento de suas obrigações.

 

Institucionalmente, o BRB tem se manifestado apenas por meio de instrumentos oficiais, como Avisos aos Acionistas, Comunicados ao Mercado e Fatos Relevantes, orientando dirigentes e colaboradores a não se pronunciarem à imprensa. O banco, no entanto, lançou uma campanha digital afirmando que permanece “firme e forte” e se autodeclara uma instituição sólida, estável e plenamente operacional.

 

O novo presidente do BRB, Nelson de Souza, nomeado após o afastamento judicial do antecessor Paulo Henrique Costa (PHC), não compareceu a uma reunião da Comissão de Constituição e Justiça da Assembleia Legislativa do Distrito Federal, alegando que só irá se manifestar publicamente após a conclusão das auditorias e a análise do balanço contábil consolidado de 2025 pelos acionistas. O fato gerou desconforto entre os deputados, que aprovaram sua convocação obrigatória para futura audiência.

 

De acordo com declarações do presidente da comissão, Thiago Manzoni, o não comparecimento é visto como falta de respeito com o cidadão do Distrito Federal, enquanto o deputado Fábio Felix ressaltou a necessidade de esclarecimentos sobre a real situação do banco.

 

Oliveira, do sindicato, argumentou que a repercussão negativa na imprensa fortalece a defesa de uma privatização do BRB, com possível venda de ativos para bancos de grande porte por valores abaixo do mercado, o que poderia resultar na transferência de contas governamentais e empresariais para essas instituições.

 

Paralisação de projetos e expectativa de aporte financeiro

A crise institucional ocasionou a interrupção de projetos estratégicos, incluindo a expansão para outros estados, frustrando funcionários que planejavam transferência e cerca de quatrocentos aprovados no concurso público de 2022, agora dependentes da resolução do impasse para possível contratação.

 

O projeto de expansão, marca da gestão de PHC, buscava ampliar a atuação do BRB para novos mercados, conquistando a gestão de folhas de pagamento de servidores públicos em municípios como João Pessoa, além da abertura de agências em estados como Bahia, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, e a instalação de correspondentes bancários em outros locais. Esse movimento foi acompanhado por aumento nos investimentos em marketing, incluindo parcerias esportivas, como a criação do banco digital Nação BRB Fla em associação com o Flamengo, que acumulou quase quatro milhões de clientes.

 

Porém, a expansão perdeu força antes mesmo do anúncio oficial da intenção de compra do Master e foi suspensa por tempo indeterminado após a operação policial. Na segunda-feira, 13 de abril, a governadora Celina Leão, que assumiu o governo em março de 2026 após a saída de Ibaneis Rocha, afirmou que a diretoria do BRB avalia o fechamento de agências em outros estados, ressaltando que a decisão cabe ao colegiado do banco. Mesmo assim, declarou que a instituição retomará seu foco regional, priorizando o Distrito Federal e a concessão de crédito local.

 

A governadora reforçou que o banco público não corre risco de quebra e que o BRB possui plena capacidade para cumprir acordos firmados com o Banco Central, assegurando que uma solução para a crise será apresentada e implementada em até trinta dias. Oliveira, no entanto, criticou o prazo e reiterou a urgência de um aporte financeiro, destacando que a capitalização do banco é indispensável e que sua execução depende de decisão política.

 

O sindicalista defendeu que o governo do Distrito Federal tem a responsabilidade de garantir as condições necessárias para que o BRB recupere sua credibilidade, preserve o controle público distrital e continue fomentando a economia e executando políticas públicas, como os programas Cartão Gás, Cartão Creche, Cartão Material Escolar e o Sistema de Bilhetagem Automática do transporte público.

 

Desafios de transparência e impactos no sistema financeiro

César Bergo, economista e professor da Universidade de Brasília, destacou que a ausência do balanço de 2025 e de documentos contábeis agrava a crise de confiança no BRB e expõe a instituição a multas diárias superiores a cinquenta mil reais, aplicadas pelo Banco Central e pela Comissão de Valores Mobiliários. Para Bergo, a transparência é fundamental e a falta de informações gera insegurança entre investidores e clientes de todo o sistema financeiro.

 

O economista enfatizou a necessidade de ações mais rigorosas do Banco Central e da CVM para cobrar prestação de contas, afirmando que a demora na publicação do balanço e na realização das assembleias gerais para análise das contas e escolha dos novos conselheiros é injustificável. Essas assembleias estavam marcadas para o dia trinta de abril.

 

“O BRB foi alvo de um golpe que lançou o banco em uma crise não só financeira, mas, principalmente, de reputação. E nem os nomes dos dirigentes que estão falando pelo banco foram aprovados pela assembleia? A crise é de confiança e [fontes do GDF] divulgam à imprensa números que não batem, contas que não fecham, de uma maneira que nenhum acionista, economista ou contador entende?”, questionou o economista.


 

Caminhos possíveis para a recuperação do banco

Bergo apontou quatro possíveis alternativas para superar a crise. Segundo ele, a mais eficaz seria a capitalização do banco pelos sócios, sobretudo o governo do Distrito Federal, com a injeção de recursos públicos. Outra opção seria o BRB recorrer a empréstimos junto ao Fundo Garantidor de Créditos ou a outros bancos, solução que implicaria o pagamento de juros elevados.

 

O economista também aventou a hipótese de federalização do BRB, com o governo federal assumindo o banco e integrando-o a uma instituição pública federal, como Banco do Brasil ou Caixa Econômica, a exemplo do ocorrido com o Banco do Estado de Santa Catarina em 2008. Por fim, mencionou a privatização.

 

“A federalização eu não creio que o Palácio do Planalto queira fazer, pois implicaria levar para o âmbito federal um problema que é do GDF. De qualquer forma, seja lá qual for a solução, duas coisas são certas: uma é que salvar o BRB é melhor que deixá-lo quebrar. Outra, é que qualquer que seja a decisão, ela deve ser anunciada rapidamente”, finalizou Bergo.


 

O BRB foi procurado para comentar os fatos e fornecer mais informações, mas não se manifestou até a publicação. A defesa de Paulo Henrique Costa também não foi localizada. Em nota, a governadora Celina Leão afirmou que a prisão preventiva do ex-presidente do banco está sendo analisada pelo Poder Judiciário, destacando que todas as providências cabíveis foram tomadas desde o início, com colaboração total às autoridades.

 

© Copyright 2025 - Fortaleza Notícias - Todos os direitos reservados