O Instituto Inhotim, localizado em Brumadinho, Minas Gerais, iniciou as celebrações de seus vinte anos neste sábado, 25 de abril, com a apresentação de três novas obras de arte. O maior museu a céu aberto da América Latina, reconhecido por sua vasta coleção de trabalhos de artistas nacionais e internacionais e sua rica flora, agora exibe as instalações Contraplano, de Lais Myrrha, Dupla Cura, de Dalton Paula, e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento.
A diretora artística do instituto, Júlia Rebouças, ressaltou que as novas obras estabelecem uma conexão profunda com a essência e a missão de Inhotim, que é a de interligar arte, natureza e educação.
Segundo Rebouças, cada trabalho, à sua maneira, propõe uma reflexão sobre o território, a interação do público com o espaço e questões contemporâneas de grande relevância. Ela destacou que as criações também revisitam períodos da história recente que frequentemente permanecem obscurecidos.
Júlia Rebouças também enfatizou que as novas adições dialogam com o acervo já consolidado ao longo da trajetória de duas décadas do instituto.
"São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim", completa a diretora artística.
A escultura monumental Contraplano, de Lais Myrrha, está situada em um dos pontos mais elevados do Inhotim e faz alusão à arquitetura do edifício concebido por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte.
Construída com lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável, elementos característicos da arquitetura moderna, a obra se abre para a paisagem, revelando partes do jardim do museu, da mata circundante e de fragmentos de cavas de mineração nas proximidades.
O título da peça evoca a ideia de um espelhamento dessa paisagem que foi transformada pela atividade mineradora. A artista mineira Lais Myrrha explicou seu objetivo de provocar um debate sobre a interface entre a arquitetura e o ambiente natural, o tempo, a flora e a fauna, as montanhas e a mineração. Ela também questionou o impacto das tecnologias modernas nas formas de construção.
"Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante", afirmou a artista à Agência Brasil.
Paola Prates, uma psicóloga de 29 anos residente em Belo Horizonte, que visitava Inhotim pela quarta vez, teve seu primeiro contato com o trabalho de Lais Myrrha e compartilhou sua percepção.
"Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer", ponderou a visitante.
A Galeria Mata, uma das estruturas pioneiras do Inhotim, é o palco da exposição de longa duração Dupla Cura, do artista Dalton Paula. A mostra apresenta um conjunto de aproximadamente 120 criações do artista brasiliense, que reside e trabalha em Goiânia.
Esta é a mais extensa coleção de suas obras já exibida no Brasil, compreendendo pinturas, fotografias, vídeos e instalações. Todos os trabalhos abordam temas como ancestralidade, memória e a valorização da cultura afro-brasileira.
A curadora Beatriz Lemos esclareceu que o nome da exposição faz alusão a um "pacto espiritual que a permeia". Segundo ela, a dualidade, inspirada na devoção aos santos Cosme e Damião, reflete a convicção de que o fortalecimento individual está intrinsecamente ligado ao bem-estar coletivo.
Dalton Paula revelou que a reflexão sobre a memória é um dos aspectos que mais o fascina em sua arte.
"Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro. Quando a gente mostra ao público, principalmente, as futuras gerações, é algo muito importante", disse à Agência Brasil.
Marcos Soares, um engenheiro de som de 40 anos, morador de Belo Horizonte, que já visitou Inhotim seis vezes, expressou sua admiração pelo trabalho de Dalton Paula.
"Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton".
A poucos passos da obra Contraplano, a Galeria Nascente abriga a instalação Tororama, criada por Davi de Jesus Nascimento, artista nascido e residente em Pirapora, no norte de Minas Gerais.
O espaço expositivo é composto por três pinturas e um vídeo, este último gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em território mineiro. A instalação incorpora ainda carrancas confeccionadas pelo Mestre Expedito, uma figura proeminente da arte popular, que havia interrompido sua produção por uma década.
Deri Andrade, curador da obra, explicou que o nome Tororama é uma expressão que surge no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, narrando a relação do protagonista com um curso d'água.
"O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora", destacou o curador.
Davi Nascimento revelou suas origens em uma família de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros.
"A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d'água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013", disse o artista. "Esse ambiente que criei é de onde eu venho, da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador".
Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, irmã de Davi, visitou a instalação e sentiu-se transportada às memórias de infância e à história familiar.
"Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição".
Situado em Brumadinho, a cerca de sessenta quilômetros da capital Belo Horizonte, o Instituto Inhotim funciona como uma organização sem fins lucrativos. Sua manutenção é viabilizada por meio de doações de indivíduos e empresas, tanto diretas quanto incentivadas pelas leis federal e estadual de Incentivo à Cultura, além da receita gerada pela bilheteria e pela organização de eventos.
O projeto foi concebido na década de 1980 pelo empresário mineiro Bernardo de Mello Paz, e o museu foi inaugurado oficialmente em 2006, em uma fazenda com solo rico em ferro na região.
A localização privilegiada do Inhotim, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, aliada às deslumbrantes paisagens que se estendem por seus 140 hectares de área de visitação, oferece aos visitantes uma vivência singular que integra arte e natureza.
O acervo do instituto conta com aproximadamente 1.862 obras, criadas por mais de 280 artistas de 43 diferentes países. Essas obras são apresentadas tanto em espaços abertos quanto em galerias, inseridas em um Jardim Botânico que abriga mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, provenientes de todos os continentes.
*A reportagem realizou a viagem a convite do Instituto Inhotim.