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Artesãos transformam monumentos de Brasília em miniaturas e memórias

Miniaturas criadas por artesãos celebram a arquitetura e a história de Brasília, fortalecendo identidade e sonhos de famílias migrantes

21/04/2026 às 14:20
Por: Redação

No município de Santo Antônio do Descoberto, em Goiás, a rotina de Agnaldo Noleto começa ainda de madrugada. Aos 56 anos, ele coloca os óculos de proteção e a máscara, seleciona meticulosamente os materiais e, a partir das 4h, inicia a produção de miniaturas em resina, madeira e tinta. Cada uma dessas pequenas esculturas é inspirada nos monumentos de Brasília, cidade distante mais de 50 quilômetros e que ele passou a admirar profundamente.

 

Às vésperas do aniversário de 66 anos da capital federal, celebrado em 21 de abril, Agnaldo modela, monta, lixa e pinta as peças com dedicação diária, muitas vezes sendo capaz de produzir pelo menos 850 unidades por semana. Estas miniaturas são comercializadas em feiras da cidade, tornando-se lembranças procuradas por turistas e moradores. Para ele, cada peça carrega dimensões que vão além do tamanho físico: evocam memórias pessoais e marcam sua trajetória.

 

A referência mais simbólica para o artesão é a Catedral de Brasília, seja pela imagem real do monumento, seja pela reprodução que toma forma a cada madrugada durante seu ofício. Agnaldo recorda o início de sua história na capital ao vigiar carros no estacionamento da igreja, aos 14 anos, pouco tempo após deixar Riachão, no Maranhão, em 1980. A mudança, acompanhada da irmã, ocorreu quando Brasília ainda era considerada uma cidade jovem, com apenas duas décadas de existência.

 

Minha família sofria na roça. Eu ajudava eles, mas acho que eu sempre quis mesmo era ser artista.

 

Do Maranhão para as bancas da capital

Agnaldo começou a criar carrinhos de madeira e figuras de argila ainda na infância, mas a profissionalização só veio mais tarde, após incentivo de guias turísticos para que produzisse fotos instantâneas. O artesanato se tornou sua principal atividade quando adulto, período em que descobriu a pedra-sabão, material posteriormente substituído pela resina devido à presença de amianto. Nesse processo, o artesão aprendeu a esculpir e a montar suas peças, sempre abordando os clientes com a pergunta: “uma lembrancinha hoje?”

 

Segundo ele, as lembrancinhas são representativas para toda Brasília. Desde sempre interessado por cultura, considera o artesanato sua principal expressão cultural. Sua primeira obra foi uma homenagem à escultura Os Candangos, criada em 1959 por Bruno Giorgi e situada na Praça dos Três Poderes. Embora a escultura original tenha oito metros de altura, a miniatura elaborada por Agnaldo remete à própria experiência pessoal e à de outros migrantes nordestinos que buscaram recomeço em Brasília.

 

Outro monumento que admira é a Catedral de Brasília, concebida pelo arquiteto Oscar Niemeyer. Apesar de reconhecer a complexidade do trabalho de reprodução, Agnaldo ressalta que nenhuma peça atinge a perfeição do original e que é preciso dedicação para atingir o padrão de venda, critério que sustentou a criação de seus seis filhos, todos nascidos na capital federal.

 

Eles eram artistas. Eu só copio. Mas, mesmo assim, nada é fácil. Todas as peças são complicadas. A Catedral de Brasília é muito difícil. Qualquer pessoa pode fazer, mas nunca na perfeição que se exige.

 

O trabalho de Agnaldo é intenso: durante a semana, ele pode trabalhar até durante a noite. Nos finais de semana, monta sua banca em frente à Catedral, das 8h às 18h, ou enquanto houver turistas circulando. Durante a semana, cede o espaço à frente da igreja para outra família de nordestinos que comercializa as miniaturas que produz.

 

Famílias e sonhos ao redor das bancas

Nariane Rocha, maranhense de 44 anos, assumiu a gestão da banca após perder o marido Marcelino, vítima de câncer, aos 64 anos, no final do ano anterior. O casal trabalhou por uma década no local, e atualmente, Nariane conta com a ajuda da nora, Michele Lima, potiguar de 42 anos, que também se diz fascinada por Brasília e pretende permanecer de forma definitiva na cidade.

 

A família reside no Novo Gama, distante mais de 40 quilômetros da Catedral, e planeja abrir uma loja própria, além de construir a casa própria. O objetivo é evitar a exposição às intempéries climáticas, já que, em dias de chuva, precisam proteger rapidamente as peças com plástico e transportar tudo para o carro ao fim da jornada.

 

Tanto Nariane quanto Michele expressam o desejo de cursar psicologia no futuro. Segundo Michele, além do comércio, ambas gostam de conversar e compreender as pessoas.

 

Redes de artesãos e histórias de superação

Outras bancas de artesãos se espalham pela praça da Catedral de Brasília. Alberto Correia, de 57 anos, natural de Paranã, Tocantins, e atualmente residente no Itapoã, região administrativa do Distrito Federal, relata que começou a lapidar suas peças no chão, em frente à Catedral. Próximo a ele, Rodrigo Gomes, goiano de Anápolis e com 41 anos, deixou a atividade de mototaxista para dedicar-se à reprodução, em miniatura, das estruturas emblemáticas da capital. Rodrigo destaca sua predileção por criar peças inéditas, como o “Mapa Candango”, que reúne vários monumentos sobre uma base no formato do mapa do Brasil.

 

Tudo aqui tem jeito de arte. A gente tem que ser criativo para chamar atenção. A cidade é um monumento. A gente pede para olhar para as miniaturas.

 

Na banca ao lado, Tânia Bispo, soteropolitana de 58 anos e moradora do Gama, relembra que iniciou a vida de comerciante vendendo água de coco. Hoje, o marido assume essa atividade do outro lado da praça enquanto ambos se comunicam ao longo do dia. Com o trabalho nas bancas, o casal criou os quatro filhos e, há três décadas na capital, Tânia afirma sentir-se parte ativa da construção da cidade.

 

Já fui diarista e infeliz. Hoje não me imagino em outro lugar. Sou encantada por essa cidade grande.

 

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