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Projeto em Arraial do Cabo busca mapear origem de tartarugas marinhas

Estudo em Arraial do Cabo monitora tartarugas, coleta DNA e avalia impacto do turismo sobre espécies marinhas

21/04/2026 às 15:40
Por: Redação

Mergulhadores dirigem um caiaque para dentro do mar da Praia do Pontal, situada na Reserva Extrativista Marinha do Arraial do Cabo, na Região dos Lagos do estado do Rio de Janeiro. Ao atingir aproximadamente 200 metros da faixa de areia, um dos mergulhadores se submerge e retorna, em poucos minutos, com uma tartaruga marinha. Logo após, outro animal é retirado da água de maneira semelhante.

 

A ação, observada atentamente por pescadores e frequentadores da praia, está longe de ser predatória. Trata-se de um procedimento de acompanhamento da saúde das tartarugas marinhas, parte integrante do Projeto Costão Rochoso, desenvolvido pela Fundação Educacional Ciência e Desenvolvimento, uma organização não governamental. Essa iniciativa tem o objetivo de reunir dados científicos para apoiar estratégias de conservação e recuperação dos costões rochosos, áreas que marcam a transição entre o mar e o continente.

 

O projeto ganhou o apoio da Petrobras e enfrenta atualmente o desafio de descobrir a origem das tartarugas que vivem em Arraial do Cabo, uma região costeira brasileira reconhecida por concentrar a maior quantidade de exemplares de tartarugas-verdes em áreas de alimentação.

 

A bióloga Juliana Fonseca, uma das fundadoras do projeto, explica que há registro das cinco espécies de tartarugas marinhas conhecidas no Brasil em Arraial do Cabo.

 

Procedimentos de análise e coleta

Após a captura dos animais, as tartarugas são transportadas para a areia, onde passam por uma série de exames. Juliana detalha que os procedimentos incluem pesagem, medição e coleta de amostras de tecido, semelhantes a uma biópsia, com a finalidade de rastrear a origem de cada animal.

 

“Apesar de ter muitas tartarugas aqui em Arraial, é a área com maior densidade de tartarugas-verdes do Brasil, a gente não sabe onde elas nasceram. Então é isso que a gente está tentando entender agora”, completa.


 

A bióloga aponta que, ao identificar a procedência das tartarugas, será possível avaliar quais populações dependem especificamente desse ambiente. O conhecimento da relação entre áreas de desova e alimentação é considerado fundamental.

 

Segundo ela, essas tartarugas são animais com expectativa de vida de cerca de 75 anos, dos quais aproximadamente dez são vividos nas águas de Arraial do Cabo. Algumas permanecem até 25 anos antes de retornar ao local de nascimento para se reproduzir.

 

Juliana esclarece que muitos desses animais chegam ainda pequenos ao litoral fluminense para crescer e se desenvolver.

 

“São juvenis, recém-chegadas na costa. Depois que elas nascem, têm uma fase oceânica que dura, pelo menos, cinco anos. Então, com cerca de 25 centímetros, voltam para a costa. Em Arraial do Cabo, elas crescem e se desenvolvem muito bem, ou seja, engordam aqui com a oferta de alimentos”, descreve.


 

Monitoramento e identificação dos animais

No âmbito do projeto, o acompanhamento da saúde das espécies tartaruga-verde e tartaruga-pente ocorre em três praias de Arraial do Cabo—Praia dos Anjos, Praia Grande e Praia do Pontal—além da Ilha de Cabo Frio, todas localizadas na área protegida da reserva marinha. Durante os exames, são avaliados casco, nadadeiras, cauda e até as unhas dos animais.

 

“É um monitoramento para entender como a saúde das tartarugas marinhas está”, diz Juliana.


 

Para identificar cada tartaruga, os pesquisadores utilizam fotografias e programas de computador, focando principalmente nas placas existentes na cabeça do animal, cuja disposição e tamanho variam de indivíduo para indivíduo, funcionando como uma impressão digital.

 

Desde o início dos trabalhos em 2018, já foram catalogados aproximadamente 500 indivíduos, dos quais 80 tiveram material genético coletado para exames de DNA, permitindo determinar suas origens. Essas análises genéticas são feitas em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), e os resultados são esperados em até seis meses.

 

Estudo sobre o impacto da aproximação humana

O Projeto Costão Rochoso também conduz uma pesquisa destinada a compreender o limite de tolerância das tartarugas à proximidade de pessoas.

 

“As tartarugas são muito carismáticas, todo mundo quer observar. Por conta disso, infelizmente, a gente tem muitos relatos de assédio, de captura, de pegar a tartaruga e tirar de dentro da água, isso é um estresse muito grande para esses animais”, constata a mergulhadora.


 

Para determinar essa distância de tolerância, os pesquisadores realizam aproximações simuladas, observando a reação das tartarugas e registrando a média da distância mínima suportada pelo animal.

 

A partir dessas informações, será elaborada uma cartilha de orientações para observação adequada de tartarugas marinhas, destinada a atividades turísticas tanto em Arraial do Cabo quanto em outras regiões do Brasil e em outros países.

 

Durante os procedimentos de pesagem, medição e coleta de tecido, é comum a aproximação de curiosos, incluindo crianças, que frequentemente questionam se os animais estão doentes.

 

Os integrantes do projeto se dedicam a informar o público sobre o caráter conservacionista dessas atividades. Próximo ao local onde são realizados os procedimentos na Praia do Pontal, há placas alertando explicitamente para a proibição de tocar em animais marinhos.

 

Requisitos para participação e autorizações ambientais

A bióloga e pesquisadora Isabella Ferreira esclarece que a captura das tartarugas exige formação acadêmica em cursos como veterinária, biologia ou oceanografia.

 

Além disso, o trabalho depende de autorizações oficiais do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), vinculado ao Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, e do Projeto Tamar, organização fundada em 1980, reconhecida por sua atuação eficaz na conservação marinha.

 

Segundo Isabella, todas as atividades, incluindo captura, marcação e fotografia das tartarugas, são comunicadas previamente às autoridades ambientais locais, que acompanham as ações diretamente na praia.

 

Esta reportagem foi realizada com o apoio da Petrobras, parceira do Projeto Costão Rochoso.

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