No próximo dia 30, às 17h, o Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) e a Associação de Amigos do Museu de Folclore Edison Carneiro darão início à exposição intitulada Filhas e netas da Mãe do Barro: as louceiras de Maruanum. Esta será a primeira vez que as peças de cerâmica fabricadas com matéria orgânica originária do solo amazônico, resultado da união de saberes indígenas e de matriz africana do distrito de Maruanum, no Amapá, serão apresentadas em uma exposição exclusiva fora do estado.
A mostra será realizada no CNFCP, unidade especial vinculada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) localizada no Rio de Janeiro. A pesquisa de campo que deu base à exposição foi conduzida pela antropóloga Ana Carolina Nascimento, coordenadora técnica de Pesquisa e Projetos Especiais do CNFCP/Iphan, que esteve em Maruanum em outubro de 2025, acompanhada do fotógrafo Francisco Moreira da Costa.
Segundo Ana Carolina, a intenção de organizar uma mostra dedicada às louceiras de Maruanum já existia há pelo menos 15 anos, porém, as dificuldades relacionadas à sazonalidade dos materiais necessários e limitações orçamentárias da instituição impediram a concretização do projeto até o momento atual. Ela explicou que a produção das louças depende de matérias-primas de obtenção complexa, o que contribuiu para a postergação da iniciativa.
“A louça do Maruanum depende de uma matéria-prima que é de difícil obtenção. Então, por conta da sazonalidade da produção, da obtenção dessa matéria-prima, e também de questões orçamentárias da instituição, a gente demorou a concretizar esse desejo. Mas estamos muito felizes por realizar essa exposição agora”, disse.
O processo artesanal das louceiras está fundamentado em saberes tradicionais acerca da biodiversidade da região amazônica. Na confecção dos objetos, são utilizados o barro, as cinzas provenientes da queima da casca da árvore denominada caripé ou caraipé (Licania scabra) e a resina vegetal jutaicica, extraída do jatobá (Hymenea courbaril).
A antropóloga relatou que há diversos cuidados e restrições envolvidos na produção das peças, em especial na retirada do barro e durante o processo de queima. O principal ritual ocorre logo após a extração do barro, quando as louceiras modelam pequenas peças e as depositam no local de onde o barro foi retirado, como forma de oferenda à mãe ou avó do barro. Nesse momento, as mulheres entoam versos de marabaixo em agradecimento e para pedir proteção à peça durante a queima.
Atualmente, o conhecimento da produção de louças de barro em Maruanum é conservado por um grupo de 26 pessoas. Dentre elas, 20 são mulheres, além de dois homens e quatro crianças (duas meninas e dois meninos), repartidos em 16 vilas no distrito rural quilombola de Maruanum, situado a 80 quilômetros de Macapá, capital do Amapá.
O arqueólogo Michel Bueno Flores da Silva, que é superintendente do Iphan no Amapá, destacou que essa tradição artesanal pode impulsionar o pedido de reconhecimento do ofício tradicional de produção de louças de barro do território de Maruanum, representando o primeiro passo para o registro como Patrimônio Imaterial do Iphan.
“A solicitação de registro do ofício das Louceiras do Maruanum, protagonizada pela comunidade junto ao Iphan, não apenas assegura a salvaguarda desse saber, mas também reposiciona o Amapá no cenário nacional, evidenciando sua centralidade na produção cultural brasileira e garantindo, além da visibilidade, instrumentos concretos de proteção”, destacou Michel Flores da Silva.
O superintendente citou entre esses instrumentos a defesa dos territórios de coleta, a transmissão intergeracional do ofício e o fortalecimento econômico, alinhados aos valores culturais e espirituais do saber tradicional.
Ana Carolina Nascimento considera que a participação dos dois meninos que hoje produzem louça de barro em Maruanum, ambos bastante orgulhosos de sua atividade, pode incentivar outros jovens a aprender e perpetuar o trabalho das louceiras.
O Instituto Federal do Amapá (Ifap) também desenvolve projetos de educação patrimonial no distrito de Maruanum, oferecendo oficinas para a transmissão do trabalho artesanal das louceiras às novas gerações.
“Quem sabe outras crianças comecem também a fazer?”, sugeriu a antropóloga.
Na abertura da exposição no CNFCP, está programada uma roda de conversa às 15h, com a presença de Marciana Dias, que aos 85 anos é a louceira mais experiente de Maruanum e considerada a guardiã desse saber tradicional no Brasil. Também estarão presentes Castorina Silva e Silva, outra louceira do distrito, a pesquisadora Céllia Costa e o reitor Romaro Silva, ambos do Ifap.
Marciana Dias acumula ainda a função de mestra do grupo de marabaixo, importante expressão de dança e canto do Amapá, e foi responsável pela fundação da Associação de Louceiras em 1992.
Desde 2011, a pesquisadora Céllia Costa atua junto às artesãs de Maruanum em ações de preservação das louças de barro. Em 2016, ela passou a investigar estratégias pedagógicas para a transmissão do saber artesanal em seu doutorado na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). A partir de 2020, Céllia Costa tornou-se agente cultural e de políticas públicas, liderando o Centro sobre Cerâmica do Maruanum, Mulherismo, Decolonialidade, Relações Étnico-Raciais (Cemadere), grupo de pesquisa coordenado por ela.
O Centro viabiliza ações de educação patrimonial e desenvolvimento de políticas públicas voltadas à comunidade de Maruanum. A exposição reunirá ao todo 208 peças criadas por 18 louceiros, dos quais 16 são adultos e dois são crianças.
As obras estarão disponíveis para aquisição no Ponto de Comercialização Permanente instalado no CNFCP, como parte da 216ª edição do programa Sala do Artista Popular, lançado pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular em 1983.
A mostra permanecerá aberta ao público até 1º de julho, com previsão de itinerância para Macapá e Maruanum em seguida. A entrada é gratuita e o horário de visitação é de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, e aos sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h.
O CNFCP e o Museu de Folclore Edison Carneiro estão localizados na Rua do Catete, 179, bairro do Catete, na zona sul do Rio de Janeiro.