O debate sobre a estabilidade democrática na América Latina está no centro de dois documentários que disputam o principal prêmio do cinema ibero-americano na 13ª edição do Prêmio Platino. O resultado será divulgado em cerimônia realizada no México, no sábado, dia 9.
Entre os concorrentes, o Brasil é representado pelo longa "Apocalipse nos Trópicos", dirigido por Petra Costa, que examina a participação de lideranças evangélicas no cenário político nacional. Já o Paraguai apresenta "Sob as bandeiras, o Sol", de Juanjo Pereira, que aborda o regime autoritário instaurado naquele país durante o governo de Alfredo Stroessner.
A produção brasileira investigou, sob a direção de Petra Costa, indicada ao Emmy Awards de melhor direção em documentário, a influência exercida por figuras evangélicas nas decisões políticas do Brasil. O filme documenta os eventos entre 2018 e 2022, período de ascensão e posterior queda do governo de Jair Bolsonaro, até chegar à tentativa mal sucedida de golpe em janeiro de 2023. Também são destacadas informações sobre a ampliação da comunidade evangélica no país.
O documentário paraguaio se utiliza de imagens de arquivo, muitas delas raras, para apresentar detalhes da ditadura de Alfredo Stroessner, que durou de 1954 a 1989. O filme já foi reconhecido pelo júri do Festival de Cinema de Berlim em 2025.
Para compor a narrativa, foram recuperados cinejornais e filmes de propaganda produzidos pelo Estado, uma vez que boa parte do acervo visual foi destruída para eliminar registros dos crimes do regime repressivo.
Segundo a Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, o regime durou 35 anos, sendo o mais prolongado do continente, e resultou em pelo menos 20 mil vítimas, entre mortos e desaparecidos, com 420 casos confirmados.
O Partido Colorado mantém o comando do país desde 1947, tendo sido substituído apenas uma vez, com a vitória eleitoral do ex-bispo Fernando Lugo em 2008. Lugo foi destituído após um processo político tumultuado, o que permitiu a retomada do poder pelo partido tradicional.
O filme "Sob as bandeiras, o Sol" adota um formato sem entrevistas ou narração, optando pela reconstrução histórica através das imagens, e discute o envolvimento dos veículos de comunicação com o regime, considerado fator fundamental para a longa duração da ditadura.
O papel da mídia, de acordo com o professor Paulo Renato da Silva, da Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), foi determinante para fortalecer a propaganda do regime e evitar críticas, além de influenciar na construção da identidade nacional por meio das imagens veiculadas.
“Ter o controle dos meios era decisivo, tanto para fazer a propaganda quanto para evitar as críticas e deixar um legado”, avaliou o professor. “No Paraguai, houve uso de jornais e do rádio para conquistar o apoio e buscar ‘consenso’”, citou o pesquisador.
O documentário paraguaio também analisa a participação do país na Operação Condor, ação conjunta de inteligência e repressão entre regimes latino-americanos, incluindo o Brasil, que foi apoiada pelos Estados Unidos.
De acordo com o pesquisador da Unila, essa cooperação envolveu perseguição de opositores e troca de prisioneiros entre as nações envolvidas.
A parceria entre Brasil e Paraguai também resultou em obras de grande porte, a exemplo da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu, realizada sob condições desfavoráveis ao lado paraguaio.
Segundo o professor Paulo Renato, essa colaboração contribuiu para "vender a falsa imagem de um país que estaria se desenvolvendo, progredindo".
O longa-metragem também aborda a ascendência alemã do ditador Stroessner e sua ligação com criminosos nazistas, como Josef Mengele.
Além dos filmes voltados à análise política e social, outros dois documentários concorrem à principal premiação da categoria. "Tardes de Solidão", dirigido pelo catalão Albert Serra, é uma coprodução entre Espanha e Portugal e já recebeu premiações como o Goya. O filme acompanha o toureiro peruano Andrés Roca Rey, mostrando com realismo a experiência das touradas, incluindo sangue, enfrentamento e vitória, e foi elogiado pela crítica, mesmo gerando desconforto entre ambientalistas e no próprio protagonista.
Outra produção concorrente é "Flores para Antônio", uma realização de Elena Molina e Isaki Lacuesta. O documentário acompanha a busca de uma filha pela compreensão do pai, o músico Antonio Flores, que morreu quando ela tinha apenas oito anos. Este mergulho pessoal é conduzido por Alba Flores, atriz espanhola conhecida no Brasil pelo papel na série "Casa de Papel".
As narrativas apresentadas pelos quatro documentários finalistas do Prêmio Platino revelam, sob perspectivas distintas, aspectos da política, sociedade, cultura e relações familiares, promovendo um amplo debate sobre democracia, memória e identidade na América Latina e no contexto ibero-americano.