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Estudo aponta aumento significativo do risco de Guillain-Barré após infecção por dengue

Risco de desenvolver complicação neurológica pode ser até 30 vezes maior nas duas primeiras semanas após sintomas da dengue

16/04/2026 às 23:36
Por: Redação

Pessoas infectadas pelo vírus da dengue apresentam probabilidade 17 vezes maior de desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré (SGB) nas seis semanas subsequentes ao início da infecção. O perigo é ainda mais elevado durante as duas primeiras semanas após o surgimento dos sintomas da dengue, período em que o risco pode ser 30 vezes superior ao normal.

 

Essas conclusões são resultado de uma pesquisa realizada em conjunto por profissionais da Fundação Oswaldo Cruz Bahia (Fiocruz) e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, publicada em uma revista científica internacional. O levantamento alerta para implicações importantes diante das recorrentes epidemias de dengue no cenário nacional.

 

Segundo os dados apurados, para cada 1 milhão de pessoas com dengue, 36 podem desenvolver a Síndrome de Guillain-Barré. Embora esse número seja considerado pequeno em termos proporcionais, é significativo devido à grande quantidade de casos provocados pelos surtos de dengue no país.

 

Os autores do estudo ressaltam que a SGB é uma complicação neurológica rara, porém grave, que pode acometer pacientes após a infecção por dengue.

 

Os pesquisadores analisaram três bancos de dados nacionais relacionados à saúde: registros de internação hospitalar, notificações de casos de dengue e os óbitos registrados. No levantamento, foram identificadas mais de 5 mil hospitalizações por Síndrome de Guillain-Barré entre 2023 e 2024, sendo que 89 dessas internações ocorreram pouco tempo depois de o paciente exibir sintomas de dengue.

 

O estudo ressalta a importância de gestores do sistema de saúde incorporarem a SGB como possível complicação pós-dengue aos protocolos de vigilância, e destaca a urgência de medidas preventivas e de monitoramento durante períodos de alta incidência da doença.

 

“Durante surtos de dengue, sistemas de saúde devem ser preparados para identificar precocemente casos de fraqueza muscular e dispor de leitos de UTI e suporte ventilatório. Estratégias de vigilância ativa de SGB devem ser acionadas nas semanas seguintes ao pico de casos de dengue”, alertam os pesquisadores.


 

Conforme a avaliação dos profissionais da Fiocruz, o levantamento é uma ferramenta importante para que médicos, enfermeiros e neurologistas estejam atentos para a possibilidade de SGB em pacientes com histórico recente de dengue, especialmente quando ocorre fraqueza nas pernas ou sensação de formigamento nas extremidades, dentro de um período de até seis semanas após a infecção.

 

Os especialistas responsáveis pelo estudo enfatizam que o diagnóstico precoce é fundamental para a eficácia do tratamento, que inclui o uso de imunoglobulina ou realização de plasmaférese, procedimentos que apresentam melhores resultados quando iniciados rapidamente.

 

“Também é importante incentivar a notificação dos casos de SGB pós-dengue ou informar a vigilância epidemiológica municipal/estadual sobre a ocorrência de doença neuro-invasiva por arbovírus”, defendem.


 

Atualmente, ainda não existe tratamento antiviral específico para a dengue. O manejo dos pacientes é realizado com foco na hidratação adequada e suporte clínico. Por esse motivo, o estudo destaca que a prevenção, com medidas como combate intensificado ao mosquito Aedes aegypti e a vacinação contra a dengue, permanece como estratégia mais eficaz para evitar casos e complicações.

 

A vacinação, segundo os pesquisadores, pode contribuir para a redução significativa do total de pessoas infectadas e, consequentemente, para a diminuição dos casos graves, como o desenvolvimento da Síndrome de Guillain-Barré.

 

“Enquanto não tivermos um tratamento antiviral eficaz contra a dengue, a prevenção continua sendo a melhor estratégia. Nosso estudo reforça que evitar a infecção evita também complicações como esse tipo de paralisia potencialmente grave”, afirmam os autores.


 

Complicações e histórico de epidemias no Brasil

 

Segundo a Fiocruz, o Brasil atravessa ondas frequentes de epidemias de dengue. Em 2024, o número de casos prováveis ultrapassou a marca de 6 milhões. Mesmo sendo uma complicação rara, a quantidade absoluta de pessoas que podem apresentar SGB após contrair dengue é considerada relevante, demandando estrutura e preparo dos serviços de saúde para o atendimento desses pacientes.

 

O estudo também relembra que a associação entre doenças transmitidas por mosquitos, denominadas arboviroses, e complicações neurológicas já havia sido evidenciada durante a epidemia de Zika entre 2015 e 2016. Naquele período, o vírus Zika foi relacionado tanto à microcefalia em recém-nascidos quanto ao aumento expressivo no número de casos de Guillain-Barré em adultos. Vale ressaltar que tanto o vírus da dengue quanto o Zika pertencem à mesma família viral.

 

Entendendo a Síndrome de Guillain-Barré

 

A Síndrome de Guillain-Barré é definida como uma condição neurológica rara, em que o sistema imunológico do próprio paciente passa a atacar as células nervosas periféricas, responsáveis pela comunicação entre cérebro, medula espinhal e demais regiões do corpo.

 

Os sintomas incluem fraqueza muscular, geralmente iniciada nas pernas e podendo progredir para braços, rosto e, em situações graves, atingir a musculatura respiratória. Nessas circunstâncias, o paciente pode chegar à paralisia total, necessitando de aparelhos para manter a respiração.

 

A maior parte dos acometidos pela SGB apresenta recuperação, mas o tempo para restabelecimento pode variar de alguns meses a anos, com possibilidade de sequelas permanentes em parte dos casos.

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